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Agronegócio

Plano Safra 26/27 libera R$ 610 bi, mas exige mais planejamento do produtor

FIDC NEWSFIDC NEWS 4 min de leituraSem comentários
Plano Safra 26:27 libera R$ 610 bi, mas exige mais planejamento do produtor

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O Plano Safra 26/27, em vigor desde 1º de julho, trouxe um volume recorde de recursos para o financiamento da agricultura brasileira, mas também um conjunto mais rígido de critérios para acesso ao crédito. O resultado é um cenário de duas faces: mais dinheiro disponível de um lado, e mais exigência de planejamento financeiro do outro, num momento em que a inadimplência do setor já preocupa analistas e credores.

Contexto: o tamanho do novo Plano Safra

O programa, principal instrumento de financiamento da produção agrícola no país, soma neste ciclo R$ 610 bilhões, dos quais R$ 525,1 bilhões são destinados especificamente à agricultura empresarial. Desse montante, R$ 384 bilhões vão para custeio e comercialização, a linha que sustenta o dia a dia da operação agrícola, e R$ 140 bilhões são direcionados a armazenagem, irrigação, inovação e aquisição de máquinas e equipamentos.

Para efeito de comparação, o ciclo anterior (Plano Safra 25/26) havia disponibilizado R$ 414,7 bilhões, com R$ 101,5 bilhões voltados a investimento em infraestrutura. O salto de recursos é expressivo em termos nominais, mas o próprio mercado já vinha sinalizando um recorte relevante: segundo levantamento da Frente Parlamentar da Agropecuária, houve queda de 20% nas linhas de investimento do Plano Safra 25/26, com a modernização do setor registrando retração de quase 50%. Ou seja, mais crédito total não significa necessariamente mais crédito para investimento, e é justamente nesse ponto que o novo desenho de regras muda o jogo para quem financia e para quem toma o recurso.

O que mudou: regras mais rígidas para juros, prazos e garantias

O ponto central da mudança está nos novos critérios de concessão. As diretrizes do Plano Safra 26/27 alteram parâmetros de juros, prazos, garantias e condições de contratação, o que na prática obriga os produtores a administrar suas finanças com mais rigor, sob risco de comprometer o capital de giro da operação.

Essa exigência ganha peso adicional diante de um quadro de inadimplência que já não é marginal. Dados da Serasa Experian mostram que, ao final de 2025, 8,2% dos produtores rurais estavam inadimplentes. Para o mercado de crédito e de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, veículo que securitiza recebíveis e financia cadeias produtivas, incluindo a do agronegócio), esse número funciona como termômetro de risco: descompassos no fluxo de caixa do produtor tendem a se refletir em atraso de pagamento e, em cadeia, em pressão sobre a qualidade dos recebíveis originados no setor rural.

Análise: o produtor vira gestor de portfólio de dívida

Cleiby Kurak, diretor de Pesados na Âncora Consórcios, avalia que os novos critérios do Plano Safra colocam o produtor rural numa posição que se assemelha cada vez mais à de um gestor financeiro. Segundo ele, as novas regras de juros, prazos e garantias obrigam os produtores a administrar suas finanças de forma a não comprometer o capital de giro, o que, na prática, significa tratar o crédito rural como parte de um portfólio de obrigações a ser equilibrado, e não apenas como um recurso pontual de safra.

Essa leitura ajuda a explicar um movimento paralelo observado pelo mercado: o crescimento acelerado dos consórcios como alternativa de financiamento. Conforme dados da ABAC (Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios), o número de interessados em consórcios para aquisição de máquinas agrícolas cresceu 149% entre 2020 e 2025, com alta de 7,7% apenas entre 2024 e 2025. A demanda se concentra em caminhões, tratores, colheitadeiras e pulverizadores, itens de ticket alto que tradicionalmente dependiam quase exclusivamente do crédito oficial do Plano Safra.

Para quem acompanha o mercado de crédito privado, esse deslocamento de demanda é um sinal relevante: quando o crédito subsidiado fica mais seletivo, o produtor busca fontes alternativas, e é justamente nesse espaço que operações estruturadas, fundos de recebíveis do agro e outras formas de securitização tendem a ganhar espaço como complemento ao funding tradicional.

Perspectivas: diversificação de funding como caminho

O cenário que se desenha para os próximos meses reforça a importância da diversificação das fontes de crédito no agronegócio. Com recursos oficiais mais condicionados e uma taxa de inadimplência que já afeta um em cada doze produtores, a estruturação de investimentos de longo prazo, sem comprometer a saúde financeira das operações, passa a ser condição de competitividade, e não apenas de conveniência.

Para gestores e investidores de FIDC com exposição ao agronegócio, o ponto de atenção nos próximos meses é duplo: acompanhar se a maior seletividade do Plano Safra 26/27 se traduz em migração adicional de demanda para linhas alternativas de crédito, e monitorar de perto a evolução da inadimplência setorial, hoje em 8,2%, como indicador antecedente de risco de crédito em carteiras ligadas ao produtor rural.


Fontes: Boca Notícias (https://boca.com.br/agricultura/novas-regras-do-credito-rural-desafios-e-oportunidades), com dados de Serasa Experian, Frente Parlamentar da Agropecuária e ABAC

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