Pós-M&A: 96% das aquisições terminam em disputa entre comprador e vendedor
Estudo com mais de mil aquisições mostra que assinar o contrato está longe de encerrar a negociação.

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Um levantamento da consultoria SRS Acquiom mostra que quase todas as fusões e aquisições deixam ao menos um conflito ou pendência para resolver depois do fechamento. Earnout, ajustes de preço e passivos tributários lideram a lista, e isso tem efeito direto sobre quem avalia risco de crédito de empresas que passaram por uma transação.
O cenário: conflito é regra, não exceção
Casos brasileiros recentes, como Arezzo&Co e Soma ou Natura e Avon, deram visibilidade às frustrações que aparecem depois de uma grande transação. Nem toda operação termina em cisão ou revenda, mas o atrito pós-fechamento é muito mais comum do que parece. Segundo a SRS Acquiom, 96% dos M&As têm pelo menos um embate ou questão pendente depois de concluídos.
Os dados são do M&A Earnouts & Claims Study de 2026, que reúne 1,17 mil aquisições de empresas privadas americanas. Juntas, somam mais de US$ 1 trilhão e foram fechadas entre 2009 e o primeiro semestre deste ano, a maioria nos últimos três anos. As fontes de conflito mais frequentes são o earnout devido ao vendedor, os pedidos de ajuste de preço feitos pelo comprador e os pedidos de indenização. Em metade das transações aparecem duas ou mais dessas frentes ao mesmo tempo.
Earnout é a parcela do preço que só é paga se a empresa vendida cumprir metas depois da transação. É muito usado para aproximar as expectativas de valuation das partes, mas o valor final fica indefinido até o fim do período de performance. Por isso é o ponto mais sensível dos contratos.
De acordo com o estudo, 52% das transações com earnout resultaram em algum pagamento ao vendedor. Mas só 21% do valor máximo potencial foi efetivamente desembolsado, e o pagamento médio ficou em 51% do teto previsto. O número não indica litígio por si só, mas mostra como é difícil para o antigo dono receber muito além da parcela principal do negócio.
Em um terço das operações, o vendedor contestou o valor do earnout. Em 35% dessas contestações, a renegociação aumentou o pagamento, somando US$ 157 milhões adicionais. Apenas 3% dos casos contestados chegaram a uma decisão judicial ou arbitral. Esse recorte usa uma base de 199 aquisições com earnout fechadas desde 2021, que somam US$ 25,5 bilhões em valor de transação e mais de US$ 6 bilhões em pagamentos potenciais, considerando só negócios com período de performance já encerrado.
O prazo das metas e o perfil do comprador também pesam no resultado:
- - Períodos de performance de até um ano tiveram algum pagamento em 74% dos casos. O índice cai para 49% entre um e dois anos e sobe para 66% acima de três anos.
- - Em aquisições de fundos de private equity, 72% dos earnouts tiveram algum sucesso, contra 38% nas feitas por compradores estratégicos americanos.
- - Quando a empresa adquirida era de tecnologia, o índice foi de 66%.
Na frente de indenizações, a base analisada tem 587 aquisições. Dessas, 28% registraram ao menos um pedido (claim) depois do fechamento, num total de 366 pedidos. Houve casos em que a garantia depositada em conta escrow para cobrir indenizações foi liberada por inteiro.
Cerca de 80% das demandas judiciais ou arbitrais decorrem de supostas violações das declarações e garantias dadas pelo vendedor, as chamadas representations and warranties. Outros 19% envolvem taxas e custos. Entre os 294 pedidos por quebra de declarações e garantias, a distribuição foi esta:
- - questões tributárias: 38%
- - descumprimento de leis: 15%
- - problemas de capitalização: 10%
- - passivos não revelados: 9%
- - questões trabalhistas e contratos com clientes: 6% cada
- - dados e cibersegurança: 2%
Ouvido pelo Pipeline, o advogado Rodrigo Baraldi, que atua em M&A, aponta onde está a fragilidade do earnout. "Quando o pagamento de parte do preço depende de resultados influenciados por decisões de quem assumiu o controle, a ausência de salvaguardas contratuais adequadas pode transformar um mecanismo de alinhamento econômico em uma fonte relevante de litígios", afirma. Ele reconhece, porém, que o instrumento continua importante para superar divergências de valuation e dividir entre as partes os riscos do futuro.
Para o mercado de crédito privado, a principal lição é que os passivos mais contestados, sobretudo os tributários, costumam aparecer depois da auditoria prévia. Uma empresa recém-adquirida pode carregar obrigações contingentes, disputas de earnout ou pedidos de indenização que não estavam no balanço no momento da análise. Para gestores de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) que têm como cedentes ou sacados empresas envolvidas em M&A recente, isso afeta a leitura de risco de contraparte, a calibragem de subordinação e a projeção de PDD (provisão para devedores duvidosos).
O estudo trata de transações americanas, mas o movimento se repete no Brasil, onde disputas pós-fechamento vêm ganhando espaço no noticiário corporativo. Para comprador, vendedor e financiadores, vale acompanhar três pontos: a redação das cláusulas de earnout e das salvaguardas sobre a gestão depois da troca de controle, o tamanho e as condições de liberação das contas escrow, e o peso das contingências tributárias nas declarações e garantias.
Para o investidor de crédito estruturado, a conclusão prática é que a conclusão de um M&A não encerra a análise. O acompanhamento do cedente precisa continuar ao longo de todo o período em que ainda podem surgir ajustes, contestações e pedidos de indenização.
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