Empresas trocam recuperação judicial por negociações privadas para enfrentar crise do crédito
O avanço da recuperação extrajudicial entre grandes empresas brasileiras sinaliza uma mudança importante na forma como o mercado enfrenta crises financeiras. Levantamento divulgado pela Reuters mostra que o número de companhias que recorreram ao mecanismo saltou de 16, em 2021, para 84, em 2025.

Apenas em 2026, 33 empresas já aderiram à modalidade, envolvendo cerca de R$ 109 bilhões em passivos financeiros. Casos recentes como Raízen, GPA, Casas Bahia e Tok&Stok mostram que empresas de diferentes setores passaram a negociar diretamente com credores antes que a deterioração financeira torne inevitável uma recuperação judicial.
Para Marcello Guimarães, presidente da SWOT Global Consulting, doutor em Direito, mestre em Economia e especialista em reestruturação empresarial, esse movimento representa uma mudança estrutural na gestão financeira das empresas. "A recuperação extrajudicial deixou de ser uma solução excepcional para se tornar uma ferramenta estratégica de preservação de valor. Em um ambiente de juros elevados e crédito mais restrito, negociar antecipadamente com credores pode reduzir custos, preservar liquidez e evitar impactos operacionais muito maiores", afirma.
O cenário acompanha um período de maior pressão sobre o crédito corporativo. A Raízen conduz atualmente a maior recuperação extrajudicial da história do país, envolvendo aproximadamente R$ 65,1 bilhões em dívidas. O Grupo Pão de Açúcar homologou um plano de cerca de R$ 4,5 bilhões, enquanto Casas Bahia reestruturou aproximadamente R$ 4,1 bilhões e a Tok&Stok também recorreu ao instrumento durante seu processo de reorganização financeira. O movimento ocorre em um contexto marcado por juros elevados, maior seletividade dos investidores e necessidade crescente de preservação de caixa, levando empresas de diversos segmentos a reavaliar sua estratégia de gestão de passivos.
Na avaliação do especialista, a principal discussão deixou de ser jurídica e passou a ser econômica. "O desafio hoje não é apenas renegociar dívidas, mas demonstrar que a empresa possui condições reais de recuperação. Isso exige avaliações independentes, projeções financeiras consistentes, estudos de viabilidade e análises técnicas capazes de oferecer segurança para credores, bancos e investidores durante todo o processo", explica.
Além de comentar por que empresas como Raízen, GPA, Casas Bahia e Tok&Stok optaram pela recuperação extrajudicial, Marcello Guimarães pode explicar quais setores tendem a recorrer ao mecanismo nos próximos anos, como credores analisam a viabilidade dos planos de reestruturação e qual o papel de auditorias, perícias econômico-financeiras e avaliações independentes para garantir que essas operações preservem empresas economicamente viáveis, em vez de apenas postergarem problemas financeiros.
FIDC NEWS
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