Ratings viram critério de escolha entre FIDCs e mudam a disputa por investidores
Com R$ 30,6 bilhões captados no semestre, os FIDCs passam a disputar investidor também pela nota de crédito, e não só pela taxa.

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Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) responderam por 16,6% da captação líquida da indústria de fundos no primeiro semestre de 2026. Com mais estruturas disputando o mesmo capital, pagar acima do CDI já não basta para atrair o investidor profissional. O rating de crédito passa a fazer parte da comparação.
Os FIDCs fecharam o primeiro semestre de 2026 com captação líquida de R$ 30,6 bilhões. A indústria brasileira de fundos captou R$ 184,7 bilhões no mesmo período, então os FIDCs ficaram com cerca de 1 em cada 6 reais.
Somados aos Fundos de Investimento em Participações (FIPs), os FIDCs movimentaram R$ 62,7 bilhões, pouco mais de um terço das entradas líquidas entre janeiro e junho. Com os Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais), os três veículos ligados ao financiamento da economia real chegam a R$ 67,8 bilhões. Pela diferença entre os números, os FIPs ficaram com cerca de R$ 32,1 bilhões e os Fiagros com R$ 5,1 bilhões.
O volume mostra que o segmento cresce em escala, mas também que a concorrência entre fundos ficou mais intensa. Quando várias estruturas oferecem remuneração parecida acima do CDI, a taxa sozinha explica pouco sobre a qualidade de cada operação. É aí que entra o rating de crédito, uma avaliação independente da capacidade de uma cota ou série cumprir os pagamentos nas condições previstas.
O rating é uma camada extra de informação para fundos institucionais, gestoras, family offices e investidores profissionais que comparam operações com carteiras, garantias e níveis de risco diferentes. As agências olham, entre outros pontos:
- qualidade dos recebíveis;
- histórico de inadimplência;
- concentração entre cedentes e devedores;
- subordinação das cotas (a parcela que absorve as primeiras perdas e protege as cotas sênior);
- mecanismos de proteção da estrutura;
- capacidade de cobrança e experiência dos prestadores de serviço.
A nota normalmente não vale para o FIDC inteiro. Ela é dada a uma cota ou série específica, que pode ter proteção e prioridade de pagamento diferentes das outras. Por isso, dentro do mesmo fundo, a cota sênior pode ter uma nota e a subordinada outra, ou nenhuma.
Um exemplo recente é o FIDC Intra Solidez, da Intra Asset. A 7ª série de cotas seniores recebeu da S&P Global Ratings o rating preliminar brAA- (sf). A faixa AA fica logo abaixo da AAA na escala nacional e indica qualidade de crédito elevada, mas não garante que não haverá perdas. O sufixo "(sf)" indica que a nota é de finanças estruturadas.
"O investidor precisa entender não apenas quanto uma operação pode render, mas quais mecanismos sustentam esse retorno. O rating contribui para organizar essa leitura, porque transforma informações sobre carteira, garantias, governança e capacidade de pagamento em uma referência que pode ser comparada com outras estruturas do mercado", afirma Valdir Piran Junior, CEO e Diretor Executivo da Intra.
As agências publicaram relatórios de avaliação e monitoramento para FIDCs de vários segmentos de crédito ao longo de junho e julho. Isso tende a mudar a forma como os fundos competem. Em vez de disputar só pela maior remuneração, os FIDCs passam a competir também por solidez operacional, diversificação, governança e proteção das cotas mais seniores.
Para o gestor, há um efeito comercial direto. Muitas instituições têm políticas internas que exigem rating mínimo para certas aplicações. Uma estrutura sem nota fica fora do radar desses investidores, por mais atraente que seja a taxa. Com rating, o fundo pode chegar a um público maior.
O artigo também traz uma ressalva: a nota não substitui a análise completa. Ela deve ser lida junto com prazo, liquidez, remuneração, senioridade e composição da carteira. Dois fundos na mesma faixa de rating podem ter exposições e mecanismos de proteção bem diferentes.
"Uma classificação elevada é consequência de uma estrutura capaz de suportar cenários adversos, e não apenas de um bom desempenho em períodos favoráveis. Para o gestor, o desafio é demonstrar que seleção de crédito, monitoramento e governança permanecem consistentes durante toda a vida do fundo", diz Valdir Piran Junior.
Os FIDCs já concentram 16,6% da captação líquida da indústria. Com esse peso, o uso de ratings tende a fazer parte do amadurecimento do mercado: diminui a diferença de informação entre gestor e investidor e dá mais ferramentas para equilibrar risco e retorno.
Nos próximos meses, vale observar três pontos:
quantas novas emissões chegam ao mercado com rating desde a estreia;
se os fundos com nota conseguem captar a taxas mais baixas que os sem nota;
como as notas já dadas se comportam ao longo da vida dos fundos.
Esse último ponto é o mais importante. Um rating só tem valor enquanto a estrutura continua a merecê-lo.
Fontes: SpaceMoney, "Ratings ganham espaço entre FIDCs na disputa por investidores"
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