FIDC de risco sacado da Casas Bahia entra na lista de R$ 17,3 bi em dívidas
O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, protocolado no último domingo, revelou uma cadeia de credores que vai muito além dos bancos tradicionais. Entre os cerca de 28 mil credores listados, chama atenção a presença do IBCB AF01, fundo de investimento usado pela companhia para estruturar operações financeiras, com R$ 1 bilhão em aberto. O caso reacende o debate sobre a exposição de estruturas de crédito estruturado a varejistas em dificuldade.

Contexto: uma crise que já dura três anos
A recuperação judicial não surge do nada. Em 2023, a Casas Bahia já havia implementado um plano de reestruturação, com o fechamento de 55 lojas, a demissão de 8,6 mil funcionários e a redução de R$ 1 bilhão em estoques. No ano seguinte, a companhia passou por um processo de recuperação extrajudicial, com um passivo de R$ 4,1 bilhões.
Mesmo assim, as dificuldades financeiras se aprofundaram. A empresa afirma enfrentar agora a "pior crise financeira desde a fundação", em um cenário mais complexo do que o de 2024. Neste ano, o grupo já fechou 298 lojas e demitiu cerca de 3 mil funcionários somente em agosto.
O aumento da Selic desde 2021 é apontado pela companhia como o principal vilão, dado que sua operação é estruturalmente dependente do crediário. Essa modalidade, que remonta à fundação da empresa na década de 1950, responde hoje por 15,9% das vendas. Entre abril e junho deste ano, a carteira de crediário da Casas Bahia fechou em R$ 6,3 bilhões, um volume expressivo que exige funding constante e caro em um ambiente de juros elevados.
O fato central: R$ 17,3 bilhões e o papel do fundo de recebíveis
O passivo total da recuperação judicial soma R$ 17,3 bilhões, distribuídos entre cerca de 28 mil credores. A maior parte, R$ 16,4 bilhões, é composta por dívidas quirografárias, ou seja, sem garantia real, categoria que engloba a maioria dos débitos com fornecedores. As dívidas trabalhistas somam R$ 754,5 milhões.
No topo da lista de credores individuais está a Zurich Minas Brasil Seguros, parceira da varejista na oferta de seguros de garantia estendida e proteção para celulares e eletrônicos, com R$ 1,97 bilhão a receber. Logo atrás aparece o IBCB AF01, fundo de investimento utilizado pela companhia para estruturar operações financeiras, com R$ 1 bilhão em aberto. A natureza da estrutura remete diretamente ao mecanismo de risco sacado, no qual instituições financeiras antecipam a fornecedores o pagamento pelas mercadorias vendidas à varejista, que por sua vez ganha um prazo maior, com juros, para quitar a dívida junto ao financiador. É justamente esse tipo de operação, estruturada via cessão de crédito e originação ligada aos recebíveis da varejista, que costuma lastrear fundos de recebíveis voltados a antecipação de fornecedores.
Entre os fornecedores industriais, a Samsung ocupa a terceira posição, com R$ 937,6 milhões a receber. Completam a lista a Electrolux (R$ 700 milhões), a Whirlpool (R$ 635,9 milhões), a LG (R$ 623,7 milhões) e a Motorola (R$ 619 milhões). Do lado bancário, o Bradesco soma R$ 655,6 milhões, considerando valores devidos diretamente ao banco e ao Digio, controlado pela instituição. O Banco do Brasil aparece com R$ 598,1 milhões e o Itaú com R$ 208,3 milhões.
A companhia também atribui parte da crise à inflação, que reduziu o poder de compra das famílias de menor renda, e ao avanço da concorrência de plataformas internacionais como Amazon e Mercado Livre.
Análise: o risco sacado como ponto de atenção para gestores de crédito
Para gestores que monitoram fundos expostos a operações de risco sacado e cessão de recebíveis ligados a grandes varejistas, o caso Casas Bahia funciona como um alerta prático. Estruturas desse tipo dependem da saúde financeira do sacado, ou seja, da varejista que originou a dívida com o fornecedor, e não apenas da qualidade de crédito do fornecedor beneficiado pela antecipação.
"Quando o sacado entra em recuperação judicial, o risco deixa de ser uma questão de rating do fornecedor e passa a depender diretamente da recuperação de crédito dentro do processo", avalia um analista de crédito estruturado que acompanha o setor de varejo. A avaliação de PDD, a provisão para devedores duvidosos, em fundos com exposição a esse tipo de operação tende a ser revisada rapidamente diante de um evento de crédito dessa magnitude, o que pode pressionar cotas subordinadas que absorvem as primeiras perdas na estrutura.
O episódio também reforça a importância da diversificação de sacados dentro de carteiras de FIDC voltadas a risco sacado e antecipação de recebíveis, já que a concentração em um único grande varejista amplifica o impacto de qualquer deterioração de crédito.
Perspectivas: o que monitorar daqui para frente
O processo de recuperação judicial da Casas Bahia deve se estender por meses, com a formação do quadro geral de credores e a votação de um plano de recuperação que definirá deságios e prazos de pagamento para cada classe de credor. Para os cerca de 28 mil credores listados, o desenrolar do processo determinará o percentual efetivo de recuperação do crédito, o que impacta diretamente a marcação a mercado de posições ligadas à companhia.
Gestores com exposição a fundos de recebíveis originados por operações de risco sacado com varejistas em geral devem acompanhar de perto a evolução do quadro de credores, a manifestação de outros fundos de investimento no processo e eventuais decisões judiciais sobre a ordem de pagamento das dívidas quirografárias, categoria que concentra a maior parte do passivo da varejista. O caso também deve alimentar o debate regulatório sobre exigências de diversificação e limites de concentração por sacado em fundos estruturados que operam com risco sacado no varejo brasileiro.
Fontes: O Globo Categoria sugerida: Empresas Tags sugeridas: FIDC, risco sacado, recuperação judicial, Casas Bahia, cessão de crédito, crédito privado
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